Sobre o Estado de "Preocupação Materna Primária"
A "preocupação materna primária" é um estado de fusão emocional delineado pelo pediatra e psicanalista inglês D. W. Winnicott, no qual mãe e bebê são percebidos como um só. É um momento esperado e necessário durante o processo de vinculação entre esse par, pois permite à mãe adaptar-se às demandas de seu filho e identificar-se com ele (Vieira e Raia, 2024). Nesse sentido, vale dizer que o bebê, ao nascer, também não se diferencia daquela que exerce seus cuidados, vendo-se como parte fundamental dela durante seu desenvolvimento inicial. Esses estágios iniciais no mundo externo (ligados aos primeiros três meses de vida) compreendem a chamada fase de exterogestação, termo proveniente de uma teoria formulada pelo antropólogo Ashley Montagu e popularizada pelo pediatra Harvey Karp.
A teoria em questão leva em consideração a ideia de que o período gestacional não se encerra com a saída do bebê do útero materno, mas perdura como um momento de transição do ambiente intrauterino para o ambiente externo. Segundo essa mesma linha de compreensão do desenvolvimento infantil, isso aconteceria devido ao fato de os seres humanos, ao longo da evolução de sua espécie, terem adquirido capacidades intelectivas que levaram à formação, consequentemente, de um cérebro maior. Para que os bebês pudessem passar pela pélvis da mulher com mais facilidade, seria necessário que nascessem antes de alcançarem sua formação completa. Esse acontecimento implicaria, portanto, na necessidade de uma continuidade do processo gestacional fora do útero (González, 2015).
Desse modo, entende-se que os bebês, ao nascerem, possuem não só uma necessidade afetiva, mas também fisiológica, de ficarem próximos à figura materna, para que possam experimentar um aconchego e uma segurança semelhantes às vividas cotidianamente ao longo da gestação. Viver o estado de "preocupação materna primária" configura-se, assim, como uma forma de suprir as demandas da exterogestação, na medida em que proporciona uma vivência única entre mãe e filho.
Com o intuito de facilitar esse período crítico, tanto para o recém-nascido quanto para a mãe (que está atravessando o delicado puerpério), a ciência e a própria experiência pessoal de milhares de mulheres desenvolveram algumas ferramentas e técnicas que auxiliam na mimetização do ambiente intrauterino. Dentre elas, pode-se citar o ruído branco (semelhante ao som de ventiladores, ar-condicionado ou o "shiii..." entoado por muitos), o ninho, o swaddle, a técnica do charutinho e outros. O uso desses instrumentos, juntamente com toda a carga afetiva depositada no cuidado, pode auxiliar os cuidadores a criarem um ambiente que traga mais conforto para o bebê, tornando para todos o pós-parto mais leve de se atravessar.
VIEIRA, M. E. T. C.; RAIA, R. C. Os desafios da construção do vínculo mãe-bebê no contexto hospitalar: uma perspectiva winnicottiana. Estratégias para promoção da saúde materno-infantil: os desafios da assistência - Volume 3, p. 49–69, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.37885/240917762. Acesso em: 28/03/2025.
GONZÁLEZ, C. Bésame mucho: como criar seus filhos com amor. São Paulo: Timo, 2015.

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